sábado, 24 de janeiro de 2015

Interior

    Nós existimos aos olhos dos outros: nossa identidade consiste na opinião dos outros: os olhos dos outros são o espelho, olhamos para a nossa face nos olhos dos outros. Este é o obstáculo, o problema — porque os outros não podem ver o seu ser interno. O seu ser interno não pode ser refletido em nenhum espelho, seja ele qual for. Apenas o seu exterior pode ser refletido; os reflexos são apenas do exterior, do físico. Mesmo que você fique diante de um espelho, apenas a sua parte física poderá ser refletida. Nenhum olho poderá refletir a sua parte interior. Então, os olhos dos outros refletem sua riqueza, suas façanhas no mundo, suas roupas; eles não podem refleti-lo. E quando você vê que os outros pensam que é pobre — isso significa que não tem boas roupas, uma boa casa, um bom carro, você começa a dirigir-se para essas coisas. Você acumula apenas para ver sua riqueza nos olhos dos outros. Então os olhos dos outros começam a refletir que você está enriquecendo cada vez mais, que está ganhando poder e prestígio. Sua identidade consiste em reflexos, mas os outros só podem refletir os objetos — não podem refleti-lo. Você passa o dia inteiro envolvido pelos outros. À noite, ao dormir, o mesmo acontece: ou você fica inconsciente, se o sono for profundo, ou fica novamente envolvido pelos outros nos sonhos. O problema é que você vive continuamente com os outros: nasce na sociedade e morre na sociedade — sua existência interior consiste no social. E sociedade significa olhos em toda a sua volta.


    Seja o que for que esses olhos reflitam, eles o impressionam. Se todo o mundo disser que você é um homem bom, começará a sentir-se bom. Se todo o mundo pensar que você é um homem mau, começará a sentir-se mau. Se todo o mundo disser que está doente, começará a sentir que está doente. Sua identidade depende dos outros, é uma hipnose através dos outros. Entre na solidão — viva com outros mas não esgote a si mesmo com os outros. Fique com os olhos fechados pelo menos uma hora por dia. Fechar os olhos significa estar fechado para o social; quando nenhuma sociedade existe, apenas você, então você pode encarar a si mesmo diretamente. Uma vez por ano vá por alguns dias para as montanhas, para o deserto, para onde não houver ninguém, exceto você, e veja a si mesmo como é. Do contrário, vivendo continuamente com os outros, você criará uma hipnose em si mesmo. Essa hipnose é a razão pela qual você continua influenciando os outros, impressionando os outros. O essencial não é viver ricamente, o essencial é dar impressão aos outros de que você é rico — mas estas são duas coisas completamente diferentes. Os outros ficam impressionados com qualquer coisa que você possua, nunca ficam impressionadas com você. Se você encontrar Alexandre com roupas de mendigo, não o reconhecerá, mas se encontrar o mendigo que sempre esteve pedindo esmolas em sua rua sentado em um trono como Alexandre, cairá a seus pés e o reconhecerá.

    Certa vez, um grande poeta, Urdu Ghalib, foi convidado pelo imperador para jantar. Muitas outras pessoas foram convidadas, quase quinhentas. Ghalib era um homem pobre, é muito difícil um poeta ser rico — rico aos olhos dos outros. Os amigos sugeriram:
 – Ghalib, é melhor você pedir roupas, sapatos e um bom guarda-chuva emprestados. O seu guarda-chuva está tão estragado, o seu casaco desbotado. E com essas roupas e esses sapatos com tantos buracos você não terá uma boa aparência!
Mas Ghalib disse: – Se eu pedir alguma coisa emprestada, me sentirei desconfortável por dentro porque nunca pedi nada emprestado a ninguém. Tenho sido independente, tenho vivido por meus próprios recursos. Quebrar um hábito de toda a minha vida apenas por um jantar não é bom.
    Assim ele foi para a corte do Imperador com suas próprias roupas. Quando apresentou seu convite ao porteiro, o homem olhou para ele, riu e disse: "De onde você roubou isso? Vá embora daqui imediatamente. Senão você será preso!" Gahib não podia acreditar. Ele disse:
 – Eu fui convidado! Vá perguntar ao Imperador! – O porteiro disse:
 – Todos os mendigos pensam que foram convidados! Você não é o primeiro, muitos outros vieram bater na porta antes. Fuja daqui! Não fique aqui porque os guardas logo estarão chegando!
     Assim, Ghalib foi embora. Seus amigos sabiam que isso iria acontecer, por isso tinham arrumado um casaco, sapatos e um guarda-chuva para ele — coisas emprestadas. Então ele colocou os objetos emprestados e voltou. O porteiro inclinou-se e disse: "Entre".
    Ghalib era um poeta muito conhecido e o Imperador amava sua poesia, então ele foi colocado justamente ao lado do Imperador. Quando o banquete começou, Ghalib fez uma coisa estranha e o Imperador pensou que ele estivesse louco — começou a alimentar o seu casaco dizendo:
 – Coma isto, meu casaco, afinal foi você que entrou e não eu.
    O Imperador disse:
 – O que você está fazendo Ghalib? Ficou maluco? – Ghalib disse:
 – Não. Quando vim pela primeira vez não me deixaram entrar. Depois, este casaco veio e entrou. Só estou aqui porque ele não podia vir sozinho! Se não fosse ele, eu não poderia ter vindo!

Isso está acontecendo com todo o mundo — não é você, mas o seu casaco que é reconhecido pelos outros; assim, você fica enfeitando-o, fica colocando adornos em si mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário